Os conflitos internacionais e a informação

Um honroso convite do Ministério da Defesa lançou-me o desafio de introduzir o debate sobre os conflitos internacionais e a informação.

Se caísse na habitual tentação escolástica do universitário que sou, começando pela procura das definições de conflito, de internacional e de informação, julgo que, nos dez minutos que me são concedidos, bem poderia dissertar sobre questões eventualmente interessantes, provocadas pelas minhas ideias pessoais, ou pelas da minha escola, mas sem lançar para o debate nenhuma semente daquelas opiniões polémicas que o poderão tornar fecundo.

Tentarei não seguir o caminho escolástico, que comecei por denunciar, aceitando as regras do jogo dos organizadores do painel sobre os media e a defesa, para quem os conflitos internacionais são as clássicas guerras quentes, mesmo que juridicamenete não possam qualificar-se como tal, e para quem a informação é aquela que tem como veículo os chamados meios de comunicação de massas, onde dominam os jornalistas da imprensa escrita e audiovisual, bem como os profissionais das relações públicas das forças armadas.

Neste sentido, não falarei da polemologia dos conflitos de interesses, dos conflitos culturais e dos confrontos de civilizações.

Por outras palavras, não só não utilizarei um conceito lato de informação, como não entrarei nas zonas de fronteira da informação-intelligence, desde as nformações de segurança às informações estratégicas. Ficar-me-ei pela epiderme do conceito de informação, a que tem como continente os chamados mass media.

Direi a este propósito que a relação entre os profissionais da comunicação social e os profissionais da guerra, com os paradigmas do correspondente de guerra e do oficial de relações públicas souberam habituar-se a conviver nos quadros da guerra fria dessa guerra possível, paz improvável, como a qualificou Raymond Aron.

De certa maneira, conseguiu estabelecer-se uma fronteira entre a informação e a propaganda, mesmo quando certa informação se assumia como propaganda e muita propaganda se vestia de informação.

Com efeito, no mundo bipolarizado, também a informação estava bipolarizada, vestindo as camisolas de um ou outro dos contendores, pela adopção de uma certa concepção do mundo e da vida.

Todos os meios de informação estavam comprometidos na acção psicológica desse processo global, dessa magna guerra civil ideológica, onde todos sujámos as mãos, optando por uma ou outra das concepções do mundo e da vida em confronto.

Está aliás feito o inventário das inúmeras guerras quentes e das constantes guerras mudas que marcaram o quotidiano do mundo desde 1945 a 1990.

Se entre os anos vinte e cinquenta, a propaganda ainda se chamava propaganda, principalmente nos modelos totalitários estalinista, maoísta, musoliniano e hitleriano, quando se utilizava predominantemente a via radiodifusiva naquilo que Serge Tchakhotine, em 1939, qualificou como a violação das multidões pela propaganda política, eis que os herdeiros dos Ministérios e secretariados nacionais da propaganda, passaram depois para o eufemismo da informação, até porque a melhor das propagandas é aquela que emite sem a imagem propagandística.

Não sei se hoje os herdeiros do processo não são os Ministérios da Cultura e todas as outras entidades mistas, ou místicas, encarregadas da estratégia cultural e da política de imagem de uma determinada comunidade política.

Neste tempo de regresso aos confrontos civilizacionais e às guerras linguísticas os mercados do audiovisual, aliás, controlados em cerca de 40% pelos USA são o novo terreno de um magno conflito, onde se jogam as liberdades nacionais, ameçadas de colonização pela opinião dominante que mais consegue circular nas auto-estradas da comunicação da aldeia global.

O audiovisual é até a principal exportação norte-americana, a que se seguem os produtos aeronáticos. Isto é, a venda do prestígio da american way of life, através da indústria cinematográfica, das séries de televisão e da indústria discográfica

Com efeito, os norte-americanos tem o pragmatismo de aprenderem com os erros passados. Não esquecem, por exemplo, o fracasso da sua intervenção do Vietname. Ainda recentemente, Robert S. McNamara, em In Retrospect. The Tragedy and Lessons of Vietnam, Time Books, 1995, vem confessar as causas do fracasso, pelo qual foi um dos principais responsáveis.

O fracasso de toda a perspectiva da tecnoestrutura marcada pelos alvores da cibernética e da era dos organizadores, especialistas em pesquisa operacional e em análise de sistemas

Com efeito, segundo as suas próprias palavras, o modelo funcionalista da era dos organizadores que jamais esteve na Indochina. Não conhecia nem a história, nem a língua, nem a cultura, nem os valores. Os meus colegas e eu decidíamos sobre o destino de uma região que ignorávamos.

Sublinharei a circunstância do nosso colóquio decorrer quando os desenvolvimentos do conflito na ex-Jugoslávia podem levar à intervenção de forças militares portuguesas conflito internacional, obrigados que estamos pelas teias de variados compromissos de mebros da NATO, membros da UEO e subscritores de um Tratado da União Europeia, do qual consta o pilar da PESC.

É que, o conflito mais próximo pode não constituir mais um dos espectáculos a que somos alheios, com enviados especiais ou comentadores especialistas a analisarem como cosmólogos um objecto distante.

Não tarda que passemos do estatuto de observadores comprometidos a actores, mesmo que secundários, de um processo de guerra quente.

Tentando entrar directamente na matéria, direi que faz parte de todos os discursos daqueles que querem assumir-se como bem pensantes e politicamente correctos, especialmente perante um auditório de especialistas em comunicação social, lisonjear a respectiva actividade, proclamando que vivemos hoje na aldeia global comunicação, seguindo o já estafado argumento de Marshall McLuhan, de 1962, consagrado desde a publicação da Gutenberg Galaxy.

O argumento número dois consiste em exaltar a importância dos mass media e dos seus profissionais, declarando que os mesmos constituem o generoso quarto poder dos nossos modelos demoliberais.

O argumento número três, na senda das vulgarizações de Alvin Toffler, será o de dizer que os operários da informação são a vanguarda da Third Wave e os principais construtores dos novos amanhãs que cantam, daquelas generosas sociedades da abundância, onde os trabalhadores do conhecimento e os analistas de símbolos libertariam os homens concretos das plurisseculares algemas da alienação e da opressão.

Não julgo conveniente seguir esse caminho, porque me parece falacioso produzir um discurso épico sobre algumas árvores sem procurar entender o sentido da própria floresta.

Direi, a este respeito, que não há uma revolução da informação que possa ser dissociada da revolução técnico-científica e da revolução dos mercados e que estas três revoluções andam ligadas à emergência da revolução dos teatros estratégicos e à revolução demográfica.

Aliás, todas estas revoluções são meras parcelas daquele todo a que, desde o começo desta década de noventa, se começou a dar o nome de revolução global, expressão consagrada num relatório feito para o Clube de Roma, em 1991, por Alexander King e Bertrand Schneider, para quem a first global revolution da história da humanidade derivaria precisamente da circunstância do primeiro estímulo para a identificação e a sobrevivência das comunidades políticas historicamente constituídas já não provir das tradicionais relações entre amigos e inimigos da velha essência do político, mas antes dos inimigos globais de todas as comunidades humanas, como seriam a fome, as doenças, as questões ambientais ou o risco maior de um confronto nuclear à escla planetária.

Até acrescentarei que os acontecimentos do fim da década de oitenta, desde a ascensão de Gorbatchov à queda do muro de Berlim, com a imediata implosão da URSS, foram até menos causa do que consequência dessa revolução global.

King e Schneider, partindo do clássico princípio que nos diz que o nós precede o eu, que cada um só ganha consciência de si mesmo quando consegue estabelecer uma fronteira com o outro, o que tem levado à sobrevalorização da ameaça vinda de força, como principal elemento de desintegração, consideram que só no nosso tempo é que surge uma ameaça global e, consequentemente, só agora que os homens todos começam a ganhar consciência existencial da globalidade humana.

De facto, tem sido o risco maior, o elemento realmente acelerador da mundialização

Aquilo que os citados autores qualificam como Revolução Global, era, aliás, teorizado, há mais de duas décadas em Portugal, pelo Professor Adriano Moreira que, na senda de Teilhard de Chardin, falava numa lei da complexidade crescente nas relações internacionais, na multiplicação das dependências e interdependências que é acompanhada por uma também multiplicação quantitativa e qualitativa dos centros de decisão, movimento de contrários que geraria novas formas políticas, os grandes espaços, bem como órgãos supranacionais de diálogo, cooperação e decisão.

Numa convergência acompanhada por uma divergência que exigiria uma nova unidade.

Isto é, que se assistia, tanto a uma planetização dos fenómenos políticos, com a consequente marcha para a unidade do mundo, como a uma dispersão, a uma fragmentação, a uma multiplicação quantitativa e qualitiva dos centros de decisão, nomeadamente com a progressão quase geométrica do número dos Estados e dos organismos internacionais.

Essa aparente contradição (por um lado, as exigências de uma crescente mundialização, e por outro, as exigências opostas da diversificação que, por exemplo tem levado a que no tempo dos grandes espaços se viva, simultaneamente a idade dos nacionalismos), constitui, aliás, o mais evidente sinal do complexo.

Porque é complexo tudo o que é mistura de contrários. E porque, do complexo só poderemos sair, não pela vitória de um pólo sobre o outro, através da antítese vitoriosa sobre a tese, através da síntese, mas sim pela harmonia.

A superpotência URSS não era suficientemente poderosa para ser autárcica. Podia ter SS20, mas deixou que um simples Cessna aterrasse na Praça Vermelha. Podia ter iniciado com o Sputnik e, depois, com Gagarine, a era da astronáutica, mas não sabia produzir transistores nem máquinas fotocopiadoras.

Era suficientemente poderosa para amedrontar o mundo com as bombas termonucleares, mas não conseguiu domar os mujahidini no Afeganistão nem ainda hoje consegue controlar os techetchenos, tal como os norte-americanos não conseguiram aguentar o voluntarismo dos guerrilheiros vietcong.

O primeiro dos sinais de convergência no sentido do mundialismo é sem dúvida a grande revolução técnico-científica.

Uma revolução científica que já não é apenas a mera continuidade da Revolução Industrial do século XIX, isto é, a mera exploração da massa pela energia, ou a exploração da natureza pelo homem, mas antes uma revolução das tecnologias da informação, que conhece a lei da entropia, descoberta por Rudolf Clausius nos finais do século XIX, a existência de uma nova grandeza variável da energia ... a quantidade de energia que, sendo gasta numa mudança, é irrecuperável pelo sistema e fica para sempre na zona do desperdício no balanço da energia do Universo.

Basta recordarmos, em termos de teorias estratégicas, que, depois dos clássicos confrontos que opunham o poder terrestre ao poder marítimo, tal contradita foi superada pelo aparecimento do poder aéreo e, mais recentemente, com a chamada Iniciativa de Defesa Estratégica, a guerra das estrelas, isto é, o poder supra-terrestre, supra-marítimo e supra-atmosférico, deixou de ser um exclusivo da ficção científica

Uma conclusão a reter desde já é que o poder internacional passou a ser medido pelo poder científico, tanto o poder da investigação como o poder tecnológico. Aliás, das vinte maiores empresas mundiais, seis delas são do sector micro-electrónico e informático, e estas só acederam a esse ranking nos últimos vinte anos

Outra das fundamentais revoluções da revolução global é a revolução dos mercados.

Primeiro, foi o reconhecimento do homem como animal de trocas, de marcadorias, serviços, aquela revolução do doux commerce, na qual muitos profetizaram a inevitabilidade das armas da paz se substituirem às armas da guerra.

Aquela revolução pacífica que leva muitos a citarem os exemplos da Alemanha e do Japão que, de derrotados, há cinquenta anos, se assumem hoje como os novos senhores do mundo, sem terem que investir em defesa e segurança.

Podem não ser superpotências, não têm assento no Conselho de Segurança da ONU, mas fazem parte do Grupo dos Sete.

Hoje, das cem maiores entidades económicas mundiais, misturando Estados, em termos de PIB, e empresas, em termos de volume de facturação, verificaremos que mais de metade são as chamadas multinacionais. E todos sabem que estão neste momento recenseadas cerca de 37 000 firmas multinacionais com cerca de 206 000 filiais.

Contudo, a revolução dos mercados, assume hoje novo sentido com a emergência da chamada geofinança, dessa network structure dos fluxos financeiros diários que passam pelas bolsas de valores de todo o mundo, e onde, minuto a minuto, podem pôr-se em causa empresas, moedas, países ou grandes espaços.

Um esotérico sector, onde apenas parecem saber operar dez grandes holdings de peritos capazes de dominar os segredos desse processo

Nesse sentido, importa recordar que Bouthros Bouthros-Ghali tem vindo a chamar a atenção para a circunstância desta globalização ter feito emergir novos poderes que transcendem as estruturas estaduais, de ter surgido um poder mundial que escapa aos Estados..

Basta salientar que os três primeiros fundos de pensões norte-americanos a Fidelity Investments, o Vanguard Group e o Capital & Research & Management controlam dez vezes mais dólares que os conseguidos em Dezembro de 1994 pelo tesouro norte-americano, o Banco Mundial e o FMI para ajudarem a moeda mexicana

O mais importante dos novos poderes passa, assim, pelo fluxo financeiro da geofinança que tem as características do imediatismo, da desmaterialização, da permanência e do planetário, bem como o revivalismo dos rumores, dos receios e da pópria fé das bruxarias, típica das sociedades de casino, dessa nova religião dos mercados que tem como missionários militantes os descendentes dos yuppies.

Podem reunir-se as superpotências, os G7, as cimeiras da NATO, mas não se conhece o rosto dos mestres do mercado, desses novos predadores, para quem sentidos como o da justiça e da honra parecem não contar.

A este respeito, importa sublinhar que revolução dos mercados foi sobretudo o processo de livre circulação dos capitais, precedido pelo processo da desregulmentação e das privatizações.

A economia desmaterializou-se. O poder deixou de residir nos elementos materiais, nos factores de produção da teoria marxista, como era a terra, os recursos naturais e as máquianas, e passou a assentar em factores imateriais, como o conhecimento científico, a alta tecnologia, a informação, a comunicação e as finanças.

O poder transformou-se numa rede de poderes, deixou de ser uma coisa, um patrimonium, um ter e passou a ser uma relação, uma rede de muitos micropoderes, onde os novos mestres predadores e conquistadores já não são os detentores dos factores de produção nem os organizadores da era dos managers, mas sim os efectivos manipuladores da rede que conseguem por todos os meios a necessária inside information.

Todos este novos grupos escapam a anteriores formas de representação e de legitimação política e social e desprezam o bem mais precioso de qualquer democracia, aquela informação que permite a consolidação de uma opinião crítica.

Os novos poderes têm com eles legiões de aliados e colaboracionistas:

-os quadros da tecno-ciência (como intelectuais, engenheiros, investigadores científicos, etc.) que trabalham para incorporar o avanço da técnica nos novos produtos e serviços, os quais estão a tornar caduco o tradicional conceito de universidade, um grupo cada vez mais cosmopolita que tende a depender mais das multinacionais do que dos subsídios estaduais;

-as tecnoburocracias dos Estados e das organizações internacionais, até porque os gestores de alto nível tendem a ser educados nas mesmas escolas e nas mesmas universidades; que mantêm a educação permanente

-os criadores de símbolos, nesse conúbio entre os universitários e os opinion makers; paralelo à própria entrada dos grandes media no sistema dominante

Já não temos as sete irmãs das multinacionais petrolíferas, das grandes famílias que dominavam o tempo das trocas de mercadorias do auge da revolução industrial

Passámos para a sociedade da informação. Uma informação que não se consome, como acontecia com o petróleo ou a alimentação, mas que se cria pelo uso.

O poder passou do produtor para o consumidor, do mais pequeno para o maior número. De cima para baixo.

Sobre a revolução da informação, importa assinalar que assistimos à uniformização e à ubiquidade da informação, todo o mundo se transformou na aldeia global da informação simultânea, com o consequente aparecimento de uma engenharia social que vai moldando uma opinião pública mundializada e o problema do controlo dos mecanismos da mesma.

O homem massa transformou-se em audiência, em consumidor em vítima potencial das novas armas do terror massiço.

Grupos mais poderosos que os Estados tocam no bem mais precioso das democracias que é a informação.

A transmissão de dados à velocidade da luz, a banalização dos satélites de telecomunicações.

Temos apenas duas cadeias planetárias de televisão, a Cable News Network de Ted Turner e a Music Television que alteram os costumes e as culturas, as ideias e os debates.

Temos sobretudo duas agências de informação audiovisual, a Worldwide Television News (WTN) e a Visnews, que todos os telejornais do mundo vão disriamente reproduzindo.

Primeiro está o poder económico. Depois o poder mediático. Só em terceiro lugar vem o poder político. A ascensão de Silvio Berlusconi.

A terceira é a revolução dos teatros estratégicos, a mundialização dos fenómenos da segurança e da defesa, provocada tanto pela corrida armamentistas, como por novas formas de guerra potencial, como a guerra atómica, a guerra química, a guerra bacteriológica e a guerra meteorológica.

A quinta a alteração quantitativa na relação entre grupos étnicos. As bombas demográficas do sul relativamente ao decréscimo da população branca.

Estas cinco revoluções, que na sua interacção constituem o núcleo da tal revolução global da história da humanidade, fizeram com que ruísse a velha ordem mundial, estabelecida em Yalta, em 1945, e que, até 1989, se desenrolou segundo ritmo da chamada guerra fria.

A mistura destas duas revoluções podia dar a esperança dos novos poderes dos guerreiros do conhecimento, dos analistas de símbolos, com soldados de software, com o apelo aos recursos humanos, à educação como prioridade das prioridades

Os novos media com o telefone satélite e os microcomputadores poderiam fazer o apelo ao small is beautiful

O doce comércio parecia submergir a violência da guerra

Contudo, o tempo acelerado das mudanças políticas subsequentes ao processo da revolução global, não foi acompanhado por uma paralela revolução cultural. É que se as revoluções parcelares se fazem no curto prazo, já as revoluções culturais e morais exigem sempre um tempo demorado, um médio e um longo prazo.

Aqui e agora, em 1994, cinco anos depois do ano 1989, talvez importe vislumbrar alguns dos sinais dos tempos que a hiperinformação da aldeia global nos oculta, talvez importe tentar penetrar na constelação causal das nossas circunstâncias, a fim de conseguirmos detectar as correntes profundas da história que nos arrastam.

Vivemos, com efeito, um tempo de aceleração da história, um tempo acelerado, marcado por vertiginosos acontecimentos que a hiperinformação da chamada aldeia global da comunicação vai quase efemerizando.

As lentes imediatistas, utilizadas pelos analistas do curto prazo, descrevendo, com os mais pormenorizados zooms das reportagens directas, as árvores da nossa floresta, quando não a casca ou um pedaço de folha, não nos têm deixado perspectivar a própria floresta, coisa que apenas se consegue pela técnica da compreensão e pelo clássico método científico que impõe que se procure substituir a opinião pelo conhecimento.

Sucede apenas que, para tanto, continua a faltar teoria, dado que para tentarmos falar da nova realidade continuamos a utilizar conceitos provenientes da ordem anterior.

Não será que a guerra não passa da continuação da política por outros meios e vice versa? O comércio como o substituto da guerra ou aquilo com que se faz o comércio é aquilo com que se faz a guerra?

Qual a fronteira que separa a informação da propaganda, a comunicação da iacção psicológica? Qual a distância que vai da realidade à ficção? Não será a história o género literário que mais se aproxima da ficção? Não será que a informação-espectáculo do poder mediático nos faz viver em regime de realidade virtual?

Faço parte daqueles que gostariam de subscrever o Projecto da Paz Perpétua de Immanuel Kant e até gostaria de participar na elaboração de uma lei universal que colocasse a guerra fora de direito, declarando-a como o inimigo público número um de toda a humanidade.

 

Mas sei, de experiência vivida e pensada, que em nome dessas ilusões o Presidente Wilson com os seus 14 Pontos e o Pacto Briand-Kellog não impediram que depois da Grande Guerra de 1914-1918 se tivessem acirrado os ressentimentos que conduziram à Segunda Guerra Mundial, assim se demonstrando que muitas das principais causas do inferno são as boas intenções sem força.

Com efeito, se tenho os olhos postos no céu dos princípios de uma paz pelo direito, tembém tenho os pés presos no chão da realidade dos homens concretos.

Sabemos que desde 1945, para além das fases quentes da Guerra da Coreia, do Vietname, das guerras do Médio Oriente e da Guerra do Golfo, decorreram cerca de centena e meia de conflitos que, praticamente, não nos deram um só semana de paz.

As duas superpotências que polarizavam os blocos da guerra fria não se afrontaram directamente e mesmo as chamadas guerras por procuração, apenas instrumentalizaram

Embora acredite não ser utopia a constituição de uma organização universal que consiga estabelecer na comunidade internacional um estádio semelhante àquele que no interior dos Estados já foi atingido, com o Direito a superar a vingança privada, apoiado no monopólio da força física legítima, julgo que só dentro de um longo prazo, que poderá ser de séculos, poderemos banir a guerra e estabelecer a necessária paz pelo direito.

E digo isto aqui e agora, cinco anos depois do ano 1989, quando superámos alguns dos meandros que nos poderiam conduzir a uma Terceira Guerra Mundial e que alguns depressa qualificar como tempos de fim da história, mas quando ainda vivemos a questão da Bósnia produto daquela balcanização que acelerou o conflito de 1914-1918.

Digo isto, aqui e agora, depois do fim da ordem mundial estabelecida em Yalta, Bretto Woods, São Francisco e Potsdam, embora sem saber qual a nova ordem, a não ser que acabou a antiga, como costuma ironizar o Professor Adriano Moreira. Porque se acabou a guerra fria, apenas pudemos ainda aceder a uma paz fria, mantendo-se a hipótese de inúmeras guerras quentes.

 

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Copyright © 1998 por José Adelino Maltez. Todos os direitos reservados.
Página revista em: 02-01-1999.